Texto por Flaviano Cardoso – bancário da Caixa Econômica Federal afastado por adoecimento ocupacional, representante da CIPA, advogado e ativista sindical.
No Brasil e no mundo, milhões de trabalhadores e trabalhadoras adoecem em silêncio. A dor psíquica que nasce da humilhação cotidiana, do assédio institucional e do desrespeito aos limites humanos tem sido tratada, historicamente, como fraqueza, quando deveria ser reconhecida como um alerta: o trabalho, em sua forma mais crua e exploratória, está matando. E o Estado – que deveria proteger – muitas vezes se omite.
Este artigo é um manifesto. Uma proposta concreta de mudança. Queremos, a partir da recente reformulação da Norma Regulamentadora número 1 – NR-1 -, publicada em maio de 2025, construir um novo marco civilizatório: o direito de não adoecer. O direito de dizer não ao trabalho que adoece. O direito de dizer isso sem culpa, sem punição, sem exigência de atestado médico, apenas com base no risco psicossocial percebido.
A nova NR-1 traz, em sua essência, a possibilidade de recusa ao trabalho em condições que ameacem a saúde mental do trabalhador. Essa recusa – antes invisível, abafada ou reprimida – ganha agora força normativa. Ela se ancora no direito constitucional à dignidade humana, à saúde e ao meio ambiente de trabalho equilibrado.
O que estamos propondo não é apenas uma interpretação jurídica. É uma mudança de paradigma. Reconhecer que o sofrimento no trabalho não é um “problema do trabalhador”, mas sim um sintoma de um sistema produtivo adoecedor. Um sistema que não pode mais continuar funcionando à custa da dor psíquica alheia.
Essa proposta se fundamenta também nas estatísticas alarmantes: o Brasil é um dos campeões mundiais em afastamentos por transtornos mentais relacionados ao trabalho. Bancários, professores, profissionais da saúde, operadores de telemarketing – todos expostos a pressões insuportáveis, metas abusivas, humilhações constantes e falta de empatia institucional.
Segundo dados do INSS, entre 2022 e 2024, o setor financeiro apresentou um dos maiores índices proporcionais de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, com destaque para os diagnósticos de transtorno de ansiedade generalizada, depressão recorrente e episódios de estresse pós-traumático.
Somente os trabalhadores de bancos e instituições financeiras responderam por mais de 20% das concessões de auxílio-doença por causas psíquicas em setores administrativos, superando até mesmo áreas consideradas tradicionalmente mais insalubres.
Esses números evidenciam um padrão de sofrimento institucionalizado. O ambiente de trabalho bancário, marcado por hipercompetitividade, metas desumanas e cobrança algorítmica, tem transformado a saúde mental em moeda de troca. São milhares de histórias de adoecimento silencioso, medicalização forçada e tentativas de retorno sem qualquer suporte ou readaptação, configurando uma verdadeira epidemia invisível de sofrimento.
Diante disso, o direito de não adoecer precisa ser defendido por toda a sociedade. Pelos sindicatos, pelos juristas, pelos legisladores, pelas organizações de saúde e, sobretudo, por cada trabalhador e trabalhadora que já sentiu na pele – ou na mente – os efeitos de um trabalho desumano.
Esse chamado é, ao mesmo tempo, uma denúncia e uma convocação. Não podemos mais tolerar que os lucros sejam produzidos com as nossas lágrimas. Que metas sejam batidas com a nossa dor. Que o crescimento econômico siga se alimentando do esgotamento mental de uma classe trabalhadora silenciada.
É hora de um novo contrato social. Um contrato que não aceite mais o adoecimento como preço do emprego. Um pacto pelo cuidado, pelo acolhimento e pela valorização da vida.

