No início de março, um bancário PCD (Pessoa com Deficiência), que atuava como agente de negócios na agência da Ezequiel Ramos, em Bauru, foi demitido sob a justificativa de baixa produtividade, após quatro anos marcados por assédio moral constante e condições de trabalho abusivas.
Ao procurar o Sindicato dos Bancários de Bauru e Região, o trabalhador relatou uma rotina de cobranças excessivas por metas, realizadas “por todos os meios possíveis”, dentro e fora do expediente. Mensagens via Teams e WhatsApp pessoal eram frequentes, inclusive no período da noite, por volta das 20h.
O grupo de comunicação da equipe era chamado de “Máquinas”, evidenciando a forma desumanizada com que os trabalhadores eram tratados. Perguntas debochadas, como “Cadê vocês?” ou “Ah, você veio trabalhar hoje?”, eram recorrentes. A gerente geral chegou a afirmar que, ao não realizar uma venda, o funcionário “não pagava o próprio salário”, desconsiderando completamente outras funções essenciais, como o atendimento ao público.
A situação tornou-se ainda mais grave com denúncias de práticas ilegais. Segundo o bancário, havia imposição para que toda conta corrente aberta incluísse obrigatoriamente algum produto, como seguros ou títulos de capitalização, independentemente do interesse do cliente. Esses serviços eram apresentados como tarifas obrigatórias.
O Sindicato ressalta que condicionar a contratação de um produto a outro, sem o consentimento claro do consumidor, configura “venda casada”, prática proibida pelo Código de Defesa do Consumidor.
Retaliação
Em diversas ocasiões, o trabalhador se recusou a aderir a esse tipo de conduta. Como consequência, sofreu retaliações, como sua retirada do atendimento ao público. Mesmo ao tentar agir corretamente, acabou sendo advertido ao encerrar uma conta e cancelar produtos indevidos contratados por outro colega, a pedido de uma cliente insatisfeita.
A partir desse episódio, segundo seu relato, passou a ser isolado pela gestão. “Eu virei um pária”, afirmou. Ele relatou que deixou de ser incluído nas rotinas da equipe, passou a ser ignorado pela gerente geral e era frequentemente deslocado, de forma unilateral e sem aviso prévio, para cobrir ausências em outras agências.
Essa instabilidade e exclusão impactaram diretamente sua saúde mental, agravando quadros de ansiedade e depressão. O trabalhador também afirmou ter sido frequentemente esquecido em momentos de integração, como confraternizações de fim de ano.
Discriminação e falta de inclusão
Os relatos também apontam para um cenário de discriminação. O bancário passou a suspeitar que sua condição como PCD influenciava o tratamento recebido. Segundo ele, outro funcionário PCD também não teve oportunidades de crescimento, enquanto colegas com menos tempo de casa foram promovidos.
Além disso, a agência não oferecia condições adequadas de acessibilidade. Não havia banheiro adaptado e existiam barreiras físicas, como degraus em áreas como o caixa, que dificultavam ou impediam o acesso.
“O grande marketing de inclusão do banco não passa de uma obrigação para cumprir cotas legais”, criticou o trabalhador. Ele afirmou que nunca teve igualdade de oportunidades, sendo frequentemente deslocado de função e tratado como “faz-tudo”, ao mesmo tempo em que era cobrado por metas equivalentes às dos demais.
Ironicamente, a gestora mencionada foi desligada antes da demissão do trabalhador. Isso indica que, enquanto o modelo de gestão gerava lucratividade para a agência, a conduta, ainda que completamente equivocada, era aceita e até incentivada pelo Itaú. No entanto, quando surgiram denúncias, a responsável foi descartada como se fosse um caso isolado, permitindo à instituição se eximir de responsabilidade.
O Sindicato repudia a conduta da ex-gerente geral e a conivência do Itaú. Para a entidade, o caso expõe, mais uma vez, a contradição entre o discurso institucional do banco e a realidade vivida por seus trabalhadores. Metas não podem se sobrepor à ética, e inclusão não deve ser apenas uma peça de marketing. Penalizar um trabalhador por agir corretamente e por possuir uma condição diferente não configura gestão, mas sim desumanização e incoerência.
O bancário já está sendo atendido pelo departamento jurídico e, nos próximos dias, a entidade realizará uma manifestação em protesto contra essa situação, denunciando o caso à população e à imprensa. Apesar do Itaú ter informado que a vaga de PCD já foi reposta, a substituição de um trabalhador não apaga as irregularidades denunciadas. O caso não será abafado. O Sindicato seguirá acompanhando e cobrando responsabilização, para que práticas abusivas, discriminatórias e ilegais não continuem sendo naturalizadas dentro das agências.

Fred, diretor do Sindicato, protesta contra demissão e discriminação do Itaú

