A segunda audiência pública convocada pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), para discutir os impactos das apostas online, conhecidas como bets, foi marcada por um verdadeiro espetáculo de hipocrisia. Representantes de clubes de futebol e entidades esportivas demonstraram preocupação com a possibilidade de perder milhões em patrocínios, mas ignoraram o sofrimento de milhares de brasileiros que tiveram suas vidas financeiras e emocionais destruídas pelo vício em apostas.
Realizado no dia 3, o encontro reuniu representantes do futebol, do esporte olímpico e paralímpico, do governo federal, do setor econômico e da indústria de apostas. A discussão teve como pano de fundo a Medida Provisória nº 1.394/2026, assinada pelo presidente Lula em 25 de setembro, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em todo o território nacional, tanto em ambientes físicos quanto virtuais.
Uma das declarações mais revoltantes partiu do presidente do Fluminense, Mattheus Reis e Montenegro. Ao criticar os possíveis efeitos da proibição sobre o financiamento dos clubes, ele afirmou: “O drama de uma família endividada não pode ser maior do que o drama de uma família que vai sofrer os efeitos do desemprego, que é o que vai acontecer na cadeia do futebol, principalmente nas agremiações menores com essa perda de receita”.
Segundo Montenegro, o Fluminense pode perder R$ 200 milhões em receitas ao longo de um ano com o fim dos patrocínios das empresas de apostas.
A posição das principais entidades esportivas brasileiras também chamou a atenção pela defesa das bets. O advogado da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Igor Mauler, afirmou que as bets se tornaram uma importante fonte de financiamento do futebol, contribuindo para a realização de campeonatos, a manutenção dos clubes, a modernização do esporte e a formação de atletas.
O Comitê Olímpico do Brasil (COB) alegou que os recursos provenientes das empresas de apostas representavam aproximadamente R$ 130 milhões na previsão orçamentária da entidade para 2027, o equivalente a 20% do orçamento planejado. O Comitê Paralímpico Brasileiro também ressaltou a importância dessas receitas para a formação de atletas e a promoção da inclusão.
Para o Sindicato dos Bancários de Bauru e Região, é inadmissível que dirigentes esportivos utilizem os possíveis prejuízos financeiros dos clubes como argumento para relativizar os danos sociais provocados pelas apostas. O desemprego é, sem dúvida, uma preocupação legítima. Mas isso não significa que a manutenção dos patrocínios de casas de apostas deva ser tratada como uma necessidade social superior à proteção da população.
O futebol existia muito antes das bets e não precisava lucrar com a desgraça do povo para sobreviver. Quantas famílias perderam sua estabilidade financeira ao apostar dinheiro que deveria ser destinado ao aluguel, à alimentação, às contas e a outras necessidades básicas? Quantos trabalhadores comprometeram salários e economias na esperança de obter ganhos que nunca chegam? Quantas pessoas desenvolveram compulsão, acumularam dívidas e viram suas relações familiares e sua saúde emocional serem afetadas?
Além disso, o esporte deveria ser um instrumento de promoção da saúde, do bem-estar e da qualidade de vida, jamais um aliado de uma indústria que lucra com a vulnerabilidade das pessoas, alimentando a compulsão, o endividamento e o sofrimento de milhares de famílias. O futebol e o esporte brasileiro pertencem ao povo, não às casas de apostas. É inadmissível que trabalhadores e torcedores continuem pagando com sua saúde financeira e emocional para que clubes preservem milhões em patrocínios.
Ludopatia e risco de suicídio
Na audiência, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defendeu a proibição das bets como medida de proteção à saúde pública, diante do crescimento dos casos de dependência em jogos e de seus impactos sobre a saúde mental e a renda das famílias.
Segundo ele, a procura por atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) relacionada à ludopatia cresceu mais de 200% entre 2018 e 2026, e 40% do 1,2 milhão de pessoas que pediram a autoexclusão das plataformas relataram perda de controle sobre as apostas. Padilha também chamou a atenção para a relação entre o transtorno do jogo e o risco de suicídio, além dos obstáculos enfrentados por quem busca tratamento, sobretudo as mulheres. Segundo o ministro, apenas regulamentar a atividade não é suficiente para evitar seus impactos. Ele defendeu que a proibição pode abrir caminho para que o Brasil implemente uma política inovadora de prevenção à dependência, voltada à preservação da saúde da população e à proteção das finanças familiares.
Mais comida na mesa!
O presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Carlos Galassi, afirmou que a proibição das bets já tem reflexos positivos no consumo de alimentos pelas famílias. Segundo ele, o acompanhamento de consumo nos lares brasileiros, feito pela entidade há mais de 20 anos, mostra um crescimento real no consumo dos alimentos em outubro, em comparação com 2025.
Galassi também apontou que o crescimento ocorreu em todos os formatos de varejo alimentar, com destaque para os locais frequentados pelas classes C, D e E, que destinam uma parcela maior da renda à alimentação. Para ele, isso indica que os recursos que antes iam para as apostas estão voltando à alimentação, ao pagamento de dívidas e às necessidades das famílias.
O Sindicato alerta: o vício em bets, já deixou marcas profundas na vida de bancários de Bauru e região. Carreiras foram interrompidas, empregos foram perdidos e famílias enfrentaram consequências devastadoras, que incluem demissões, internações e processos judiciais (veja reportagem completa).
Diante de consequências tão graves, é fundamental manter a proibição das bets! A saúde, a dignidade e a segurança dos trabalhadores precisam estar acima dos interesses desse mercado!
Precisa de ajuda? Não tenha receio ou vergonha, procure o Sindicato!
O Sindicato está à disposição para acolher, orientar e oferecer suporte aos bancários que enfrentam dificuldades relacionadas às apostas. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, é um passo importante para retomar o controle da própria vida com segurança e dignidade.
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