O Sindicato dos Bancários de Bauru e Região recebeu denúncias que apontam para a existência de práticas sistemáticas de assédio moral organizacional no Banco do Brasil. Os relatos indicam um modelo de gestão agressivo que começa na Superintendência Estadual e se reflete nas unidades regionais, especialmente à Regional de Marília.
Para demonstrar a gravidade da situação, o Sindicato tornará público três casos de trabalhadores que relataram ter sido vítimas de condutas abusivas por parte do gestor regional de Marília. Dois deles formalizaram denúncias à Ouvidoria/Compliance de Ética do Banco do Brasil.
O Sindicato ressalta que esses são apenas três dos casos que decidiu tornar público neste momento. A entidade já recebeu diversas outras denúncias de gerentes vinculados à regional de Marília, que relataram situações de assédio moral e descreveram um ambiente de trabalho marcado por pressão psicológica, constrangimentos, ameaças e discurso agressivo. Os relatos, muitas vezes acompanhados de choro e desespero, evidenciam a gravidade da situação e reforçam a necessidade de apuração rigorosa dos fatos e de medidas efetivas para interromper essas práticas, que têm levado os trabalhadores ao adoecimento, principalmente, ao burnout.
Metas inatingíveis, ameaças de downgrade e redução salarial, além de desqualificação
Um dos gerentes denunciantes relatou que a cobrança de metas por parte do gestor regional de Marília ultrapassa os limites de uma gestão profissional e respeitosa. Em uma das situações descritas, foi exigido que o trabalhador alcançasse 450 pontos no Conexão em apenas dois dias, meta completamente impossível de cumprir no prazo estabelecido.
O trabalhador também denunciou ter sido ameaçado de rebaixamento de cargo (downgrade), sob a justificativa de que seus resultados no semestre em curso poderiam levar a essa medida. Além disso, relatou ter sido pressionado a aceitar uma transferência para uma agência distante de seu atual local de trabalho, acompanhada de uma possível redução salarial de 30% a 40%, mesmo tendo comunicado ao regional seu estado psicológico por conta de tudo.
A conduta do gestor também envolvia a desqualificação sistemática de seu desempenho profissional.
Discurso agressivo e ameaças inadmissíveis
Durante uma reunião sobre resultados, o regional afirmou que o nome do gerente geral estava “na mesa dele” e declarou que, caso ele não entregasse os resultados esperados, ele me “mataria”. Em outra ocasião, durante uma videoconferência sobre cobranças relacionadas à inadimplência da carteira, o regional perguntou se alguém estava gravando a reunião. Em seguida, esbravejou:
“Devemos odiar os grandes devedores. Tem que ir na casa deles com uma pá no porta-malas. Ou volta com a dívida paga ou volta com o corpo no porta-malas”.
Ele também orientou o gerente geral a viajar até outra cidade, em veículo próprio, para “dar barraco” em um cartório, por conta da demora de um registro de uma operação de crédito rural.
“Emboscada corporativa” e burnout
O segundo gerente geral denunciante, também relatou ter sido vítima de assédio moral e perseguição profissional por parte do regional de Marília. Ele afirma que foi alvo de uma “emboscada corporativa”, ao ser pressionado a aceitar a transferência de uma agência de nível B para outra de nível C, antes do término do período de trava institucional de dois anos.
Durante a reunião, o superior teria ameaçado descomissioná-lo, afirmando: “Você sabe que o seu desempenho indicaria situação de descomissionamento, mas, considerando seu histórico no Banco, vou te oferecer esta agência, que é a melhor que eu tenho no momento”. Em seguida, teria reforçado a intimidação: “Olha que se eu tiver que te oferecer outra agência, não será tão boa, hein”. Apenas nove minutos após a reunião, o regional enviou um e-mail formalizando a oferta de transferência. Para o denunciante, a rapidez do envio reforça a suspeita de que a mudança já havia sido previamente preparada, deixando-lhe pouca margem para uma decisão livre de pressão.
Entre as condutas relatadas, destacam-se a exposição vexatória em reunião presencial diante de mais de 50 pessoas, bem como cobranças abusivas e humilhantes realizadas em chamadas individuais pelo Microsoft Teams, acompanhadas de desqualificação profissional e ameaças de destituição da função.
As consequências para sua saúde foram graves. O bancário acabou afastado do trabalho, com diagnósticos de síndrome de burnout, depressão e ansiedade. O INSS reconheceu o nexo ocupacional e concedeu benefício previdenciário acidentário (B91). Posteriormente, médicos da CliniCASSI o consideraram inapto.
“Café com leite”
O terceiro relato evidencia que, às vésperas do Natal, um gerente-geral, que havia assumido a função anteriormente ocupada pelo antigo gerente regional, recebeu uma proposta de downgrade. A situação foi agravada pela forma como a proposta foi comunicada pelo gerente regional, que afirmou que, em sua opinião, o GG “não merecia nem uma agência F”. Além desse episódio, o profissional já havia sido submetido a outras situações de humilhação, como a atribuição da nota 1 — a pior avaliação possível — e o uso da expressão “café com leite” para se referir a ele, em uma comunicação realizada pelo Teams.
Atualmente, o bancário encontra-se afastado de suas atividades, e o Sindicato já o orientou a formalizar uma denúncia junto à Ouvidoria.
O Sindicato considera as condutas relatadas absolutamente inaceitáveis e repudia veementemente qualquer prática que viole os princípios básicos de respeito, ética e dignidade nas relações de trabalho. Os comportamentos são graves e não podem ser tolerados nem relativizados.
A entidade exige que o BB apure rigorosamente os fatos, adote providências efetivas para proteger os trabalhadores e afaste/transfira o gestor regional de Marília das funções de comando enquanto a situação é devidamente apurada, de modo a impedir a continuidade de eventuais abusos.
Porém, a responsabilidade não se limita à gestão regional. A Superintendência Estadual também precisa ser cobrada por sua postura. Em vez de prevenir e combater práticas abusivas, se também age dessa maneira, torna-se um mau exemplo e dá carta branca às regionais para atuar sem limites, perpetuando um modelo de gestão baseado na pressão, na intimidação e no desrespeito aos trabalhadores.
O assédio moral organizacional precisa acabar!

