Se não bastasse o já inesquecível “álbum de figurinhas” lançado pela Caixa durante a Copa do Mundo, utilizado como premiação para bancários que vendessem consórcios, o banco resolveu inovar novamente. Em plena greve, os empregados da Caixa e o Sindicato dos Bancários de Bauru e Região foram surpreendidos com mais uma iniciativa super criativa e eficaz (contém ironia) da direção: o baralho “Cartas que Inspiram”.
A ação faz parte da Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho (SIPAT), evento anual obrigatório para empresas com CIPA, conforme estabelece a NR-5. A SIPAT tem uma finalidade séria e importante de conscientizar os trabalhadores sobre saúde, segurança e prevenção de acidentes.
Porém, para a Caixa, o “cuidado” de que os trabalhadores precisam neste momento é justamente um jogo de baralho. Enquanto os empregados enfrentam sobrecarga de trabalho, desvio de função, desvalorização, adoecimento e condições cada vez mais precárias, além de estarem em meio a uma greve intensificada diante de sucessivas propostas rebaixadas e de ataques absurdos em relação ao Saúde Caixa, o banco parece ter encontrado uma solução revolucionária para todos esses problemas: enviar para cada agência um jogo com 30 cartas contendo frases motivacionais.
Segundo o próprio banco, o jogo proporciona “momentos de pausa, reflexão e autocuidado”, além de melhorar o bem-estar e a conexão entre colegas, reduzir o estresse, incentivar a autoestima e criar momentos de reflexão.
A Caixa ainda apresenta algumas “dicas importantes” para utilizar o material:
- “Use quando precisar de uma pausa” – Talvez seja especialmente oportuna para quem está tentando dar conta de uma rotina cada vez mais sobrecarregada. Afinal, diante de tantas demandas, nada como uma carta para ajudar a respirar antes de voltar ao trabalho que continua acumulado.
- “Troque cartas com os colegas”- Também parece adequada essa “diquinha”. Com equipes reduzidas e trabalhadores frequentemente submetidos ao acúmulo de funções, talvez compartilhar as cartas seja mesmo um momento para ideal de pausa.
- “Use no início de reuniões” – Quem sabe o baralho ajude a tornar mais leve aquela reunião repleta de cobranças e metas abusivas.
Para o Sindicato, saúde mental e qualidade de vida não se promovem com frases motivacionais impressas em cartas. Muito menos com mensagens que parecem transferir para o trabalhador a responsabilidade de simplesmente “aceitar” situações que, muitas vezes, são consequência das próprias condições de trabalho. A iniciativa da Caixa é lamentável e representa mais um descolamento da realidade vivida diariamente pelos empregados.
Uma das cartas, em especial, chama a atenção pelo tamanho do desrespeito. Nela, a mensagem “Pratique a aceitação – Nem tudo sai como o planejado” é acompanhada da imagem de uma mulher com vitiligo. O vitiligo é uma condição autoimune que provoca a perda de pigmentação da pele, formando manchas brancas. Utilizar uma característica relacionada a uma condição de saúde para ilustrar uma mensagem sobre “aceitação” soa preconceituoso.
O problema não está em representar pessoas com vitiligo. A representatividade é importante e necessária. O problema está em associar a imagem de uma pessoa com uma condição de saúde a uma mensagem que pode ser interpretada como “aceite o que acontece e siga em frente”, especialmente em um material produzido pelo próprio banco no contexto de uma ação voltada à saúde e ao bem-estar dos trabalhadores. Isso não é postura de uma instituição centenária, muito menos pública.
A única carta que os empregados da Caixa estão realmente interessados em receber é aquela que traga uma proposta digna, Caixa! Assista ao vídeo dos diretores do Sindicato reagindo ao baralho: www.youtube.com/sindicatobancariosbauru

